Ricardo Ferreira

Ricardo ferreiraRicardo Ferreira foi um dos químicos teóricos mais importantes do Brasil. Autor de uma obra científica significativa no campo da química teórica, pelo número de artigos e trabalhos publicados, Ricardo passou a dedicar-se à física, trabalhando no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Para o professor, a química é a ciência interdisciplinar por natureza. Devido à importância teórica e bibliográfica de sua obra, em 1988 foi publicado um número especial da revista Química Nova em sua homenagem. Seu trabalho de maior destaque foi “O cálculo das constantes de ionização dos ácidos oxigenados”, sua tese de docência, devido à importância de sua aplicaçõa teórica nas pesquisas de química inorgânica. Na década de 80 passou a estudar os aspectos eletrônicos da ação enzimática e da evolução molecular, além de investigações acerca da eletronegatividade. Nascido em Recife em 1928, Ricardo começou o curso de química na Universidade de São Paulo e terminou-o na Universidade Católica de Pernambuco. Trabalhou na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no CBPF, no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), na Universidade de Colúmbia, na USP e no Earlham College. Participou da consolidação do Departamento de Química Fundamental da UFPE. Até sua morte, , dedicou-se às pesquisas na área de físico-química.

Faleceu no dia 30 de julho de 2013.

Entrevista

Entrevista concedida a Fernando Galembeck (Instituto de Química, Unicamp) e Cilene Vieira (Ciência Hoje).

Publicada em julho de 1988.

Ricardo Ferreira é um dos químicos – ou físico-químicos, como ele prefere – mais importantes de sua geração no Brasil. Autor de uma obra científica significativa no campo da química teórica, é um descobridor, incentivador e revelador de talentos. Bom número dos químicos brasileiros que hoje andam pelos 40, 50 anos aprendeu com ele química, política e vida. Por sua obra, seus antigos colegas, alunos e discípulos prestaram-lhe uma homenagem em janeiro de 1988: a publicação de um número especial da revista Química Nova (vol. 11, n° 1). Nascido em Recife em 1928, Ricardo fez parte do seu curso de química na USP e terminou-o na Universidade Católica de Pernambuco. Trabalhou na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), na Universidade de Colúmbia, na Universidade de São Paulo (USP) e no Earlham College. Hoje, participa da consolidação do Departamento de Química Fundamental da UFPE.

Você é bastante conhecido entre os pesquisadores brasileiros a partir da faixa dos 30 anos. Não sei se é entre os estudantes que estão hoje na universidade. Gostaria de uma definição de seus interesses como pesquisador, hoje.

Nos últimos anos, tenho estudado aspectos eletrônicos da ação enzimática e da evolução molecular. Ando afastado da química teórica propriamente dita. Em particular, nos últimos meses, estive dedicado a escrever um livro, que já foi enviado à Editora Universidade de Brasília e deve ser editado por ela: Henry Walter Bates e a teoria da evolução. É uma espécie de contribuição à história das idéias. Bates foi um pioneiro da teoria da evolução. Juntos, ele e Alfred Russel Wallace vieram para o Brasil com o objetivo específico de estudar os problemas da origem das espécies. Wallace ficou por aqui por quatro anos, enquanto Bates permaneceu por mais sete anos. Durante os 11 anos em que morou na Amazônia, Bates revelou-se um estudioso de borboletas e besouros. Chegou a enviar para a Inglaterra cem mil espécimes de insetos; destes, oito mil eram espécies novas para a ciência. Foi Bates quem descreveu o fenômeno do mimetismo em termos de seleção natural — uma descoberta muito importante.

Em 1984 foi publicado o livro Just before the origin — uma reavaliação da importância de Wallace e de Charles Darwin no nascimento da teoria da evolução. É da autoria de Langdon Brooks, professor da Universidade de Yale. A partir dessa reavaliação do significado de Wallace, senti necessidade de estudar certos aspectos da vida de Bates. Como se trata de um assunto distante da química, realmente tenho a impressão de que a nova geração deve me conhecer pouco. Além disto, passei esses últimos sete anos no CBPF, no Rio de Janeiro, que é uma comunidade de física. Estive afastado dos departamentos de química.

De que maneira você vê hoje a formação dos estudantes nos departamentos de química?

Hoje os departamentos de química, no Brasil, têm certa autonomia. Na Europa, há uma grande separação entre químicos e físicos e especialmente entre os departamentos de química e física. No Brasil também há essa tradição de separação. Só nos Estados Unidos, a julgar pela minha experiência, ela é menor.

ricardo ferreira cursoO nosso departamento, aqui na UFPE, parece-me ser o único no Brasil que nasceu do Departamento de Física… Quer dizer: a maior parte das pessoas que hoje estão na Química veio do Departamento de Física. Foi o que aconteceu comigo. Quando vim dos Estados Unidos, em 1972, começava a ser construído o Departamento de Física da universidade, coordenado por Sérgio Rezende. Eu tinha acabado de assinar um contrato com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas o reitor da UFPE, que era o professor Marcionilo de Barros Lins, me convidou para permanecer na universidade. Fui aceito como professor de física, e para mim essa transferência foi fundamental.

Comecei então a convidar também pessoas de química, como foi o caso do Gilberto Sá. Foi assim que, em 1983, surgiu o Departamento de Química Fundamental. No momento, nosso departamento ainda é muito unilateral. Só temos físico-química e química inorgânica. Muita gente está fora, fazendo doutorado ou em pós-doutoramento… estamos diante da necessidade de criar um curso de pós-graduação, embora estimulemos muito os alunos a sair, porque sabemos que a endogenia é um problema grave no país.

A formação profissional dos docentes do Departamento de Química Fundamental da UFPE difere da dos que cursaram as faculdades de farmácia, medicina ou as escolas de engenharia? Em que medida esse tipo de gênese de departamento lhe parece positiva?

Sempre achei que os químicos no Brasil deveriam ter uma formação com melhor base em física. Um estudo publicado há 23 anos pela Sociedade Americana de Química, sobre o futuro da química na América – o chamado “Relatório Westheimer” – previa uma crescente invasão da química pela física, pelos métodos físicos. A analítica, por exemplo, seria essencialmente uma analítica de instrumental físico.

É verdade que, três anos atrás, eles publicaram o “Relatório Pimentel”, concluindo o contrário: de agora em diante, os físicos é que precisariam saber mais de química… De fato, a astrofísica hoje é praticamente astroquímica. Que quiseram saber, pouco tempo atrás, sobre o cometa Halley, por exemplo? Foi a sua constituição: é feito de quê? Virou astroquímica… A biofísica em grande parte é bioquímica — o que se quer saber é o seqüenciamento do ácido desoxirribonucléico (DNA), como é a estrutura primária das proteínas, que aminoácidos estão envolvidos na catálise. Realmente, a química tornou-se a ciência interdisciplinar por natureza. A ciência dos materiais é exatamente isso — é química!

No século passado, até o começo deste, havia uma dicotomia muito grande entre matéria e material. Existia uma disciplina, “properties of matter”, “propriedades da matéria”, mas era uma matéria abstrata.

A matéria era contínua, não formada por moléculas?

molecularExatamente. E, por outro lado, materiais como o vidro e a cerâmica, metais e ligas, que são extremamente complicados e em geral não são estequiométricos — ou seja, não têm composição rigorosamente definida — não eram estudados nas universidades, de modo que se ficou na forma artesanal.

O pessoal de física que trabalha em estado sólido e na física atômica molecular precisa fazer análise do seu material, do seu sólido, do seu cristal. A obtenção dos cristais — que se confundem completamente com química — é um ponto reconhecidamente fraco da física no Brasil. Mas aos poucos está sendo contornado, especialmente em São Carlos, nos laboratórios que produzem os próprios cristais. No Recife também temos fornos para produção de cristais; temos até um especialista em crescimento de cristal.

Não-estequimetria é o tipo de proposta da qual os químicos em geral fugiram, por não quererem trabalhar com uma substância que não fosse definida, pura…

Sabemos que pequenas quantidades de uma impureza às vezes determinam propriedades mais interessantes. Isso é sabido no caso das substâncias fluorescentes, o espato-de-islândia, por exemplo. As propriedades do estado sólido dependem em grande parte de pequenos detalhes de composição, que fogem à relação estequiométrica da química clássica.

Acredito que, nos últimos anos, o ensino nos departamentos de química vem incluindo, cada vez mais, conceitos de física. Tenho a impressão de que a física voltou a ser um domínio forte entre os químicos e de que muitos deles estão trabalhando em problemas de espectroscopia molecular, em química de lasers etc.

Há uma questão filosófica por trás disso, que é uma certa resistência a aceitar o reducionismo completo. Alguns biólogos julgam que não se pode reduzir a biologia à química e à física e assim também alguns químicos não acham possível reduzir a química à física. Acredito no reducionismo, por exemplo, no sentido de que a física hoje em dia pode contribuir muitíssimo para a resolução do problema da biologia molecular, mais precisamente para a questão dos sistemas de neurônios, base da inteligência. Taticamente, o reducionismo tem se mostrado conveniente. Estrategicamente, ou filosoficamente, essa é outra questão.

Se você estivesse agora no meio de um curso superior de química, que caminhos veria como promissores?

Em química, no momento, procuraria trabalhar com reações analisadas no contexto o mais simples possível — no contexto dos feixes moleculares em câmaras de vácuo, de modo que fosse possível analisar o processo elementar da reação. Acho que isso dará um futuro muito grande, porque permitirá coisas assombrosas. Teoricamente, o uso do laser possibilita, por exemplo, alterar as ligações químicas de uma molécula durante uma reação. Eu entraria nessa área da cinética química.

Hoje, parece-me, a questão do tratamento da mecânica dos fluidos também é importante, porque seria a passagem da escala atômico-molecular para a macroscópica.

Que pessoas influenciaram sua formação?

A primeira influência foram os livros de ciências naturais de Arnaldo Carneiro Leão, com centenas de experiências simples para realizar. Na época do colégio — antes da reforma Capanema — quando eu tinha 14 anos, um homem que me influenciou muito foi um professor de física: Hermógenes Tolentino de Carvalho. Ele me mostrou a relação entre a física e a matemática. Porque tinha havido comigo um problema curioso: no curso primário, tinha sido ótimo aluno de matemática, mas no Colégio Oswaldo Cruz, tive um professor de matemática bastante ruim, durante três anos, e isso fez com que eu me afastasse dessa disciplina. Voltei a ser bom aluno de matemática graças ao Tolentino de Carvalho, porque ele me mostrava, da maneira mais elementar, que a matemática era essencial para a compreensão do mundo real.

Outra pessoa que me influenciou foi o Newton da Silva Maia, excelente professor de matemática. E em terceiro foi o Hervásio Guimarães de Carvalho, presidente durante muitos anos da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Foi meu professor no terceiro ano colegial, quando eu tinha 17 anos em 1945, que foi o ano da bomba atômica. Foi também professor de físico-química na escola de engenharia. Como físico-químico, Hervásio foi quem percebeu que essa área entre química e física era o que me interessava. Eu gostava de ver os precipitados de cores diferentes; sal de chumbo e iodeto de potássio, misturados, davam cristais amarelados; mas ao mesmo tempo, gostava de saber por que era amarelo.

E na universidade?

Bom, imaginei fazer o curso superior aqui no Recife, porque já havia a Escola de Química, mas por meio do dr. Luiz Siqueira Netto, que era professor de física e cujas filhas tinham ido estudar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, eu ouvia maravilhas da USP e fui estudar em São Paulo.

Tive alguns problemas de início, certa incapacidade de adaptação à vida de estudante em São Paulo. No segundo ano, porém, fiquei maravilhado com o curso de química inorgânica de Rheinboldt. No final do terceiro ano, Rheinboldt propôs que eu fizesse doutoramento com ele. Não havia ainda bolsas de estudo para isso. Atravessávamos, na época, certa dificuldade econômica. Meu pai era representante de linhos irlandeses, e no pós-guerra a indústria têxtil brasileira cresceu muito. Até no Nordeste deixou-se de usar o linho branco.

O dr. Siqueira, percebendo – dado o atrito da minha vocação com algumas disciplinas do curso de química — que eu devia ter ingressado na física, pensou em consultar meu pai. Mas este, embora um homem de visão progressista para a época, não tinha noção do que fazia um físico. Naquele tempo, o químico, no Brasil, já tinha um mercado de trabalho definido. Aqui no Recife, iria trabalhar na Fábrica da Torre, por exemplo. Já em física, em geral a pessoa terminava como professor e não havia essa idéia de uma carreira acadêmica para mim. Acabei voltando para Recife e tirei o bacharelado em química em 1951, na Universidade Católica de Pernambuco.

Em seguida, comecei a lecionar em colégios. Naquela época, a UFPE era muito limitada. Só havia concurso para o cargo de professor catedrático. Somente em 1954 consegui um cargo de professor assistente. No ano seguinte, na 7ª Reunião Anual da SBPC, apresentei um trabalho sobre “O cálculo das constantes de ionização dos ácidos oxigenados”, que mais tarde me serviria como tese de docência. Como resultado, Jacques Danon e José Leite Lopes insistiram para que eu fosse para o CBPF.

Em decorrência desse engajamento, inscrevi-me em 1956 para o concurso de livre-docência. Fui aprovado e a UFPE me deu o título de doutor. Costumo dizer que o meu título é meio fajuto!

Em 1957 consegui uma bolsa do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e fui para o Rio de Janeiro, trabalhar com o Jacques Danon no CBPF. Um ano depois, pedi uma bolsa de estudos à Fundação Rockefeller e fui para os Estados Unidos. A princípio, ia trabalhar com o Linus Pauling, em Pasadena. Acontece que ele tinha tido um atrito com o Caltech por causa de seu posicionamento em relação à bomba atômica. Chegaram a dizer que a presença dele prejudicava as doações ao instituto. Fui trabalhar então com Norman Davidson, que na época estava em transição da química para a biologia e era orientador do meu amigo Tetsuo Yamane. Trabalhei com ele em complexos de mercúrio, com adenina, timina, guanina e citosina, num trabalho experimental.

Que veio depois do trabalho com o Davidson?

Quando cheguei de volta ao Brasil, havia um projeto pelo qual me apaixonei, e acredito que muitos brasileiros também: a Universidade de Brasília. Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira criaram esse projeto no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), no Rio de Janeiro. E Darcy me convidou para fazer parte do grupo inicial.

Anísio Teixeira era essencialmente um liberal. Depois ouvi acusações explícitas de que a Universidade de Brasília era um plano do Darcy para criar quadros marxistas no Brasil, o que é um absurdo.

Havia a idéia de fazer uma espécie de intercâmbio com a Universidade de Indiana. Assim, vieram três professores de química, para estabelecer o primeiro contato: Ernest Wenkert, Walter Moore e Harrison Shull. Foi proposto que eu fosse para Indiana e, em janeiro de 1963, fui passar dois anos lá.

No ano seguinte veio o golpe militar e vi logo que não dava para voltar. Escrevi dizendo que não vinha e fiquei nos Estados Unidos durante três anos, sendo que no último fui ser professor visitante da Universidade de Colúmbia, a convite de Harry Gray.

Eu tinha bastante interesse pelo ensino; sempre me considerei muito mais um professor que um pesquisador… achava-me ainda amadorístico em termos de pesquisa. Durante esse tempo em Colúmbia, compartilhei com Harry Gray o ensino básico e aproveitei para escrever um artigo sobre eletronegatividade, que teve alguma repercussão.

Supondo que a repressão tinha diminuído, retornei ao Brasil em janeiro de 1966. De imediato, através do Marcionilo Lins, vim para o Centro de Ensino de Ciências do Nordeste (Cecine) – um órgão complementar da universidade, que dispunha de verba da Fundação Ford e mantinha uma vasta programação de cursos de curta duração em vários Estados do Nordeste, dirigidos à formação de professores secundários.

Mas, depois de permanecer aqui dois anos, comecei a perceber o endurecimento da situação, e saí novamente do Brasil, dessa vez como emigrante. Tinha três ofertas da América. Terminei aceitando a do Earlham College, a mais modesta, mas que tinha para mim a grande vantagem de ser uma instituição quaker e portanto pacifista. Ali ensinei com Ted Benfey e Larry Strong, notáveis professores de química. O Earlham era um verdadeiro santuário para rapazes que não queriam ir para o Vietnã, e eu estava tremendamente envolvido com o problema da guerra.

No primeiro ano, dava um curso com três horas de aula teórica e outro com duas sessões de aula prática. Foi no ano seguinte que tive a possibilidade de conhecer o sistema tutorial, que achei extremamente interessante, embora ao mesmo tempo achasse estranho ser tutor de moças e rapazes americanos. Eles permitiram que eu me expandisse em atividades que, de certo modo, me caracterizam. Por exemplo, montaram uma peça What a lovely war — encenada no Brasil com o título Que delícia de guerra — que era um musical pacifista sobre a Primeira Guerra Mundial. Tive a chance de trabalhar como assessor, descrevendo os personagens que apareciam, informando suas características. O sistema tutorial possibilita um alargamento do processo educacional. Cheguei até a ter uma aluna que era da área de música, coisa que no Brasil não aconteceria.

O aluno de curso superior aqui no país em geral está perdido, porque a vida cultural na universidade é muito pobre, enquanto nos Estados Unidos a oferta é muito vasta. Você não acha que a prática tutorial deveria ser pensada para o Brasil?

Tenho a melhor impressão possível da tutoria. Sou muito favorável mesmo. Mas acho que é caro.

Temos gente com talento, com trabalhos muito bons. Questiono é se o horizonte que essas pessoas têm dentro da própria área — nem digo em relação as outras — é satisfatório.

Concordo. Mas na América também há pessoas que, apesar de formadas lá e de serem muito habilidosas, são muito estreitas. No entanto, enquanto estudantes foram pelo menos expostas a cursos variados. É preciso não confundir cultura com diletantismo. Sem dúvida, o sistema universitário norte-americano é o melhor do mundo. Eles adotaram um sistema de alto nível trazido da Alemanha (os alemães descobriram as relações entre os estudos universitários avançados e as atividades industriais). Digo isto sem constrangimento, inclusive porque me oponho em tantas coisas ao sistema americano, ao imperialismo americano.

Nos Estados Unidos, é comum um empresário fazer doação à universidade. Aqui se investe em hospital, em arte, mas na educação são raros os casos…

É verdade. Não se vê nos países latinos esse tipo de coisa, típica da civilização americana, cuja prosperidade veio cem anos atrás, ao longo de linhas muito individualistas. Há casos de doações realmente enormes: a Universidade de Stanford, por exemplo, ou a Universidade de Chicago. Mas há muitos anos as verbas federais são mais importantes. A universidade americana conta com verbas astronômicas. O orçamento de Harvard (Cambridge, Massachusetts) é maior que a verba de todas as universidades brasileiras juntas. Mas no Brasil a gente tem que pensar realmente em universidades estatais, públicas. Praticamente todas as universidades da Europa são públicas, e muitas são excelentes.

Qual a sua visão da universidade brasileira hoje?

Este é, sem dúvida, um problema que nos consome muito tempo. Na minha opinião, os problemas básicos das universidades do Brasil mudaram de perspectiva. O problema inicial era de estrutura. As universidades brasileiras começaram muito mal. Com todas aconteceu o mesmo: de escolas profissionais transformaram-se, por um decreto qualquer, em universidade. Isto o Darcy definiu muito bem quando disse que, naquela época, a classe dominante só se interessava por engenheiros para construir suas casas, por médicos para cuidar de suas mazelas e por advogados para dirimir suas querelas. A exceção é a Universidade de São Paulo, que criou primeiro a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Foi esse diagnóstico que nos levou a pensar numa universidade como a de Brasília.

Com o início da redemocratização, dez anos atrás, as universidades se transformaram num front de combate. Indubitavelmente era onde se concentrava grande parte da intelligentsia do Brasil. Criaram-se organizações de professores e funcionários que tiveram um papel importantíssimo no período de abertura. Hoje, transformaram-se em verdadeiros sindicatos e, como tais, permanecem úteis.

Vejo dois perigos para a universidade brasileira: um é a recusa das classes conservadoras a aceitar certas propostas que as universidades fazem nos países adiantados; outro, muito imediato, é o populismo. Algumas universidades já estão bastante dominadas pelo chamado voto paritário. Claro que é necessário um corpo de funcionários para manter toda uma infra-estrutura. Daí a se imaginar que pessoas que não satisfazem exigências acadêmicas podem determinar a filosofia da universidade há uma grande diferença!

Quais os planos de trabalho de pesquisa no futuro próximo?

Tenho trabalhado com problemas de física molecular. Era assim que eu os denominava quando estava no CBPF, mas podem ser chamados também de problemas de bioquímica ou biologia molecular.

A minha visão do Departamento de Química Fundamental é otimista. No próximo ano deveremos ter o curso de pós-graduação, pois temos uma base sólida. No momento somos 18 professores. Destes, 14 já tem o doutorado e quatro estão se doutorando fora. As linhas de pesquisa são variadas. Uma parte está direcionada para a questão da fluorescência em terras raras, com Gilberto Sá e Oscar Malta. Há também o grupo que trabalha especialmente com o problema da transferência de cargas em moléculas de interesse biológico, como é o caso da citocromo-oxidase, com Arnóbio Gama. Temos também ótimos químicos quânticos, como o Alfredo Simas e o Mozart Ramos. Por isso, acho que as coisas vão caminhar bem. Naturalmente, vai depender da situação do país. Mas não é possível que a gente vá colocar por água abaixo todo o esforço da ciência no Brasil nos últimos 30 anos, que é mais ou menos o tempo de existência do CNPq.

Você sempre foi um pouco avesso ao trabalho nas agendas de fomento à pesquisa, dentro do governo. Isso é uma questão de discriminação, ou as condições oferecidas para esse trabalho são inaceitáveis?

É um pouco das duas coisas. Na realidade, sou avesso a trabalho administrativo. Sou uma pessoa muito desordenada e que só gosta de fazer aquilo em que está estritamente interessada. Por outro lado, acho que a burocracia no Brasil é uma coisa espantosa. Não se justifica, por exemplo, uma monstruosa concentração de pessoas trabalhando na parte burocrática da ciência. Nosso estabelecimento ainda é pequeno. A área de planejamento também está centralizada; esta é uma tendência que nos últimos anos só cresceu. Infelizmente, a centralização não diminuiu com a Nova República.

É preciso compreender também que, durante anos, eu não podia colaborar. Primeiro porque estava fora do país, depois por uma questão de postura política, por causa do sistema de governo vigente… Eu sou um animal bastante político.

Há inclusive certo ressentimento, por parte das pessoas que foram obrigadas a emigrar, com o fato de que os orçamentos da ciência e tecnologia no Brasil nunca foram tão grandes quanto nos governos militares, o que implicaria uma certa colaboração dos cientistas.

A divergência com o sistema agora está resolvida?

Até certo ponto sim, mas não acredito no sucesso do capitalismo no Brasil. O capitalismo deu certo em meia dúzia de países que foram aos poucos dominando o resto do mundo. O Brasil foi uma colônia, primeiro de Portugal, depois, indiretamente, da Inglaterra, e no momento está nesta situação em que vivemos… Assim, penso que o papel fundamental do professor e do pesquisador no Brasil ainda é a formação da nova geração, do quadro de recursos humanos, com a finalidade de manter um rigor científico. Desse modo manteremos uma tradição científica de bom nível, que estará concorrendo para uma independência nacional. No sistema atual, se você obtém uma patente, no fundo está beneficiando uma multinacional.

Acho a situação do mundo muito grave do ponto de vista ecológico. Estamos numa situação em que a própria vida sobre a terra está ameaçada. Quer dizer, está em perigo a sobrevivência do Homo sapiens, posta em perigo pela destruição maciça dos nossos recursos e pela possibilidade de uma guerra atômica, até mesmo por engano, por um erro.

Na Inglaterra, por exemplo, atualmente é normal o uso de sistemas centrais de aquecimento, por conta da temperatura muito baixa na maior parte do ano. Então você vê que esse país sobrevive por causa do petróleo e do gás do mar do Norte. Não sei como ficará a situação, especialmente da Europa setentrional, quando esses recursos acabarem. É verdade que eles ainda tem o carvão de pedra, inclusive fazem grandes estudos voltados para a gaseificação do carvão. Isto garantiria o abastecimento por mais um século. Ora, um século é muito pouco na história da espécie humana. Por outro lado, sabe-se hoje que a energia nuclear, que em 1945 parecia ser a redenção, envolve grandes perigos.

Isso ocorre em escala ainda muito maior na Alemanha, na União Soviética e assim por diante. Imagino mesmo que se possa chegar a uma situação tal como a que existe nas tundras, quando a competição deixa de ser biologicamente mais vantajosa, do ponto de vista da evolução, e aparece a necessidade de uma ajuda mútua. Em situações de grande estresse, como se tem na Sibéria oriental, não há dúvida alguma de que, na vida animal, o fator ajuda mútua começa a ser fundamental para a sobrevivência e a evolução das espécies. Indubitavelmente, alguma agressividade é necessária para a sobrevivência das espécies, mas penso que deve prevalecer o que chamo de “princípio de mínima agressividade”. Esta é a proposta do revolucionário russo e teórico do anarquismo Piotr Kropotkin, no que foi firmemente apoiado por Bates, o naturalista do Amazonas. E voltando a Bates, voltamos ao início da nossa conversa.

Fonte: Canal Ciência, Site do DQF-UFPE.

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