João Cabral de Melo Neto: o poeta arquiteto

 

joão cabral de melo neto

Nascido em 09 de janeiro de 1920, em Recife, veio de uma família com tradição na literatura, sendo primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre.

O pequeno João Cabral vivia em meio aos engenhos de açúcar pernambucanos e realizou seus estudos na capital pernambucana, participando das rodas literárias de Willy Lewin, onde conheceu escritores, pintores e arquitetos importantes da sua época. Neste sentido, os estudiosos apontam a leitura das obras do arquiteto francês, Le Corbusier, como crucial para a sua formação poética e lírica.

Além da poesia, era um amante da política e seguiu carreira diplomática, em Londres, Dacar e Tegucigalpa. Todavia, sempre teve grande afinidade com a Espanha, em especial com a cidade de Sevilha, que acabou sendo homenageada em uma de suas poesias mais importantes: Sevilha andando, escrita já em 1990.

João Cabral de Melo Neto foi membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1968. Faleceu em 09 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, aos 79 anos, com falência cardíaca. Na ocasião de sua morte, João Cabral estava quase cego, sofria de depressão e morreu ao lado de sua mulher, Marly de Oliveira.

“Dar a ver” a realidade

A construção poética de João Cabral de Melo Neto possui alguns elementos marcantes, considerados a assinatura do autor. Nesse sentido, podemos citar a linguagem seca e contida, a aversão ao lirismo e a proposta de obras cujas funções são construir a realidade.  Assim, o poeta investia na forma, construindo a poesia palavra a palavra.

Seu primeiro livro, Pedra do sono, foi publicado em 1942. Nele, é possível perceber a forte influência do surrealismo, vanguarda artística que estava em alta na época e que esteve presente em grande parte das obras dos artistas da geração de 45. Andarilho incansável e leitor voraz, João Cabral tornou-se referência fundamental para as vanguardas brasileiras do século XX, em particular para o Movimento da Poesia Concreta. Foi também grande amigo de Carlos Drummond de Andrade, tendo escrito o poema abaixo em sua homenagem:

poema

Os estudiosos afirmam que as primeiras obras de João Cabral não foram bem aceitas pelo público, que o definiam como um poeta sem alma, muito frio e sem coração. Conforme o tempo passou, a crítica reconheceu os esforços do escritor e foi tornou a obra de João Cabral referência na poesia brasileira do século XX.

Na verdade, é preciso entender que João Cabral de Melo Neto é o que chamamos de poeta cerebral. Isso quer dizer que ele buscar a reflexão sobre o próprio fazer poético, dando importância ao significado de cada uma das palavras usadas. Essa busca pela perfeição de significados fez com que ele se tornasse o maior exemplo da geração de 45.

As principais obras dele são: O engenheiro (1945), Psicologia da composição (1947), O cão sem plumas (1950), Morte e vida Severina (1954), A educação pela pedra (1966), Museu de tudo( 1975), A escola de facas (1980), Sevilha andando (1990), entre outras.

Morte e vida Severina

A poesia mais famosa de João Cabral de Melo Neto é Morte e Vida Severina, escrita em 1954. Apesar de ter tornado o seu nome imortal, esta era a obra de que o autor menos gostava. O material foi encomendado por Maria Clara Machado, que precisava de um auto de Natal, o poema narra a cena bíblica do nascimento de Cristo, representada pelo nascimento de filho de um carpinteiro pernambucano. A história se passa em um manguezal do Recife.

Severino, o protagonista, é um nordestino que sai do interior do sertão em direção ao litoral, em busca de melhores condições. Na sua fala inicial, percebe-se o drama da personagem: incapaz de encontrar características pessoais ou sociais que o diferenciem de tantos outros retirantes, Severino torna-se uma espécie de símbolo do drama vivido nas regiões assoladas pela seca.

Confira o filme completo desta obra:

O retirante chega ao Recife com uma dúvida: “será que vale a pena uma pessoa como ele permanecer viva, tendo que enfrentar tanta dificuldade?”. No momento em que ele faz essa pergunta a José, um carpinteiro com quem conversava no cais do rio Capiberibe, é interrompido por uma mulher, que vem avisar José do nascimento de seu filho. Severino testemunha, então, a solidariedade dos outros habitantes do manguezal, dispostos a dividir o pouco que têm com a criança recém-nascida. Naquele momento, ele encontra a resposta que procurava. Mesmo sendo difícil e, muitas vezes, cruel, a vida merece ser vivida.

Confira a série especial que a Rede Globo produziu em 1981 baseada na história de Morte e Vida Severina. Confira algumas cenas com José Dumont e Tânia Alves, que entoa trecho do poema musicado por Chico Buarque.
Levou prêmios internacionais nos EUA e Europa, como o Emmy, o Oscar da TV.

Fonte: Portal da Ed. Moderna

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