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EXPERIÊNCIA BÓSON DE HIGGS

Peter Higgs e François Englert são os vencedores do prêmio Nobel da Física por terem identificado há 50 anos partículas que explicam a formação do Universo e a vida como a conhecemos hoje

 GENEBRA – Peter Higgs e François Englert são os vencedores do prêmio Nobel da Física por terem identificado há 50 anos partículas que explicam a formação do Universo e a vida como a conhecemos hoje. Trata-se do bóson de Higgs, teoria que os cientistas haviam formulado nos anos 60 e que apenas no ano passado, depois de gastar US$ 8 bilhões, é que testes conseguiram provar suas teses e identificar o que seria o bóson. Para o Nobel, o prêmio vai para uma descoberta que abriu uma nova dimensão da física e que seria equivalente na ciência apenas ao descobrimento do DNA ou das teorias de Isaac Newton.

O Esquadrão do Conhecimento divulgou informações sobre a partícula de Higgs, aqui.

cientista higgs

O responsável por comprovar que Higgs e Englert estava certo foi o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), que anunciou em Genebra que identificou uma nova partícula subatômica que poderia ser o bóson de Higgs. A revelação foi a mais importante prova da existência da peça que faltava para a teoria que explica a formação do Universo, redefinindo o mundo da ciência. Mas seu real valor, para muitos no Cern, é de que abre uma nova era desconhecida para a física.

“Atingimos um marco no nosso entendimento da natureza. É histórico, mas é só o começo”, declarou naquele momento Rolf Heuer, diretor do Cern, durante a apresentação. “A descoberta é consistente com o bóson de Higgs”, comemorou. “Não há dúvida de que temos uma descoberta. A questão agora é saber que partícula é essa”, alertou.

A teoria – conhecida como Modelo Padrão e que explica o comportamento das forças e peças na natureza – indica que essa seria a partícula que garante massa a todas as demais e, portanto, central na explicação do Universo. Conhecida vulgarmente como «partícula de Deus», tratava-se da última fronteira não resolvida pela fisica. Nos anos 60, o cientista Peter Higgs desenvolveu a teoria e indicou que uma energia invisível preencheria um vácuo no espaço. Ao se moverem, partículas são puxadas uma contra as outras, dando massa a um âtomo.

Já as partículas da luz não sentem essa atração e não contam com massa. Sem a particular responsável por unir as demais, âtomos não conseguiram ser formados no início do Universo e a vida como a conhecemos hoje simplesmente não existiria.

Ao apresentar sua tese, nos anos 60, Higgs foi alvo de duras críticas, com comentários de que a pesquisa seria irrelevante que “nada adicionava” à física. Levaria meio século para sua comprovação. Ao mesmo tempo, Englert chegava à mesma conclusão, em uma pesquisa separada.

O problema é que suas partículas hipotéticas – hoje conhecido como o bóson de Higgs – jamais foram encontradas, pelo menos até o Cern desenvolver seu acelerador de partículas.

Depois de acumular dados a partir do maior acelerador de partículas do mundo, construído entre a Suíça e França e que custou US$ 8 bilhões, os cientistas praticamente confirmam a existência de sinais do bóson. Dois experimentos diferentes – os detectores Atlas e o CMS – se lançaram na corrida pela partícula no Cern, promovendo 500 trilhões de choques de átomos a uma velocidade recorde. A esperança era de a energia usada e a capacidade dos computadores de detectar os eventos permitiria visualizar o Higgs.

No Cern, cientistas insistem que o resultado final e a revelação sobre o “Santo Graal” da física só teria como rival a descoberta da estrutura do DNA, há 60 anos. Outros preferem comparar com o impacto da teoria da gravidade, de Isaac Newton, em 1687. Quanto às aplicações, todos admitem que nenhum cientistas tem hoje ideia do como a descoberta será usada e que, provavelmente, outros 50 anos se passarão para que ela tenha um uso prático. Esse foi o caso do proprio DNA ou das ondas eletromagnéticas.

Já os mais céticos alertam que a descoberta não deve ser motivo de tanta comemoração, afinal ajuda apenas a explicar a matéria, que é 4% do universo. O resto continuaria desconhecido.

Mas o consenso é de que o real valor da descoberta é a abertura de uma nova dimensão para se estudar o “tecido” que seria feito o Universo.

Ao final da apresentação, o auditório lotado de cientistas explodiu em um longo aplauso e gritos de comemoração, com todos de pé. Numa das filas estava justamente o responsável por toda essa aventura: Peter Higgs, que não se conteve e chorou ao seus 83 anos. Para Heuer, o momento “eureka” da física não era por acaso. “É o começo de uma longa jornada e isso é fascinante. Agora é que o trabalho vai começar”, completou.

Higgs – No ano passado, Higgs conversou com o Estado. “Nunca pensei que viveria para ver essa descoberta”, disse sobre o Cern Com 83 anos, dificuldade para ouvir, com uma voz fraca e com problemas ara andar, o cientista da Universidade de Edinburgh não escondia sua emoção na sede do Cern.“É tudo muito incrível. Não creio que tenha vivido algo assim”, disse.

Sobre a possibilidade de um Nobel, ele chegou a ser cínico: “não tenho muitos amigos la (no Comitê do Prêmio Nobel)”

Higgs não teve uma infância fácil. A Segunda Guerra Mundial obrigou sua família a deixar sua região. O jovem Peter foi obrigado a ter aulas em sua casa. Mas logo se interessaria pela matemática. Ateu e claramente irritado por sua descoberta ter ganhado o apelido de “Partícula de Deus”, Higgs abandonou o Greenpeace depois que a entidade passou a se opor a sementes geneticamente modificadas.

Durante a apresentação dos resultados do Cern, no ano passado, Higgs era ovacionado pelos cientistas que passaram a noite na fila para obter pela manhã um lugar no auditório onde a descoberta seria realizada. A sala vibrava como uma arquibancada de um ginásio lotado numa final de campeonato, com aplausos, gritos e abraços. Higgs não disfarçava sua timidez, insistindo a jornalistas que eram os cientistas do Cern que eram as estrelas.

Na ocasião, ele concedeu entrevista ao Estado. Eis os principais trechos:

P – Qual a importância da descoberta para o sr. pessoalmente e para a física?

R –É uma confirmação de algo que fiz há 48 anos e da muita satisfação ser provado que estava certo. Quando elaborei a teoria, não fui muito específico. Não estou preocupado se encontraram apenas um bóson de Higgs ou vários. Do ponto de vista da fisica, parece que é o fim de uma era e completamos o Modelo. Mas o mais importante é que o estudo do que se descobriu hoje levará ao que está por tras do modelo que explica a física. E espero que haja conexão mais interessante com a cosmologia.

P – O sr. espera um prêmio Nobel por conta disso?

R – Eu não tenho nenhuma ideia. Não tenho nenhum amigos próximos dentro do Comitê do Nobel.

P – O sr. achou que um dia veria isso?

R – Não fiquei sonhando durante 48 anos porque tinha mais o que fazer na vida. No começo, não tinha qualquer esperança de ver essa comprovação durante minha vida. Mas quando aceleradores do tamanho desse de Genebra começaram a aparecer é que pensei que talvez haveria alguma chance.

P – Como o sr. se sente?

R – Bem tonto, mas muito feliz.

P – Buracos negros, anti-matéria…o sr. acredita que isso tudo é ficção científica?

R – Vocês podem chamar de ficção científica. Mas para mim são teorias especulativas que existem já por algum tempo e que só agora começam a ser testadas. Assim como no caso do bóson de Higgs, há muita motivação teórica para que partes dessas teorias sejam verdadeiras. Em especial a super-simetria, que eu acredito que muitos acreditam que seja necessário em qualquer teoria e que poderá unificar o Modelo Padrão com a gravidade. No momento, não parece ser nem mesmo suficiente. Mas um passo necessário. Se não unirmos essas teorias com a da gravidade, então nada divertido ocorrerá. Isso porque a gravidade por si só não se encaixa com a teoria quântica.

Fonte: Estadão