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Ao contrário do que ocorre com o CO, a ação tóxica do CN- (e do HCN) não se deve à intenção com a hemoglobina.

O cianeto, substratos provenientes do processamento de nutrientes energéticos são oxidados em várias etapas, algumas delas acopladas à síntese de ATP. Diversos oxidantes, com diferentes valores de potencial de redução, participam das diversas etapas. Entre eles está o nicotinamida adenina dinucleotídeo, representado por NAD+.

A oxidação de um substrato proveniente do alimento ocorre com simultânea redução do NAD+ a NADH. Essa forma reduzida reage, por sua vez, com outro oxidante, que se reduz. A chamada cadeia respiratória é uma sequência de reações de oxirredução, envolvendo diversos transportadores ou carreadores de elétron, para os quais os elétrons provenientes da oxidação do substrato são sucessivamente transferidos, até que cheguem ao O2. Esse fluxo de elétrons está acoplado a um mecanismo que sintetiza ATP.

reação com cianeto

O último dos transportadores, denominado citocromo c oxidase (ou citocromo a,a3), é o responsável pela transferência final de elétrons ao O2. (Como o O2 é um oxidante forte e potencialmente danoso, é evolutivamente conveniente que a redução do 02 aconteça em locais distintos daqueles em que ocorrem outras reações importantes, como a síntese de ATP). Há, na estrutura desse transportador, íon ferro cujo nox varia +3 a +2 e vice-versa.

O cianeto tem uma grande afinidade pelo Fe+3, mas nao pelo Fe+2. Ele se liga rapidamente ao íon férrico da citocromo c oxidase, impedindo que retorne ao estado ferroso. Isso bloqueia toda a cadeia respiratória e, por conseguinte, bloqueia também a síntese acoplada de ATP.

O cianeto não se liga à hemoglobina normal porque nela há Fe+2. O monóxido de carbono, ao contrário, tem grande afinidade pelo íon ferroso e por isso se liga à hemoglobina e inibe sua atuação no transporte sanguíneo de O2.

O atendimento de urgência à vítima de envenenamento por cianeto inclui a inalação de nitrito de amila e a administração intravenosa de soluções de nitrito de sódio e tiossulfato de sódio. A função do nitrito é oxidar o Fe+2 de uma parte da hemoglobina a Fe+3. Essa hemoglobina oxidada (denominada metemoglobina) não é funcional no transporte de O2, mas compete pelo CN-, deslocando-o da citocromo c oxidase e debloqueando, assim, a cadeia respiratória. A função do tiossulfato é a de converter o cianeto em tiocianato (sob catálise da rodanese, enzima mitocondrial), íon que é relativamente menos tóxico e excretado na urina.

rodanese

Devido à toxicidade do nitrito de sódio, um paciente assintomático nunca deve ser tratado com este. Deste modo, uma das possibilidades de tratamento para a intoxicação com o cianeto é a administração da hidroxicobalamina (vitamina B12a) que combina-se com o cianeto para formar cianocobalamina (vitamina B12) e tem sido usada para proteger pacientes sujeitos a  infusões prolongadas de nitroprussiato de sódio. Quando a hidroxicobalamina é administrada sozinha, o cianeto é aprisionado na forma de cianocobalamina. No entanto, quando combinado com o tiossulfato de sódio, o cianeto aparece na forma de tiocianato. A administração concomitante do tiossulfato pensa-se reciclar a ligação hidroxicobalamina, reduzindo a quantidade de hidroxicobalamina necessária para desintoxicar uma determinada dose de cianeto.

Na prática, a maior parte destes agentes são usados em combinação com o tiossulfato de sódio.

Caso Santa Maria-RS

SERGIO BALDISSEROTTO  Foi o doutor Sérgio quem levantou a primeira suspeita de que as vitimas do incêndio da boate Kiss tivessem se intoxicado com cianeto. O cianeto está presente no tipo de espuma que revestia a boate. Quando inalado, ele ataca e inibe a ação de uma das enzimas responsáveis pela produção da energia de que as células humanas precisam para viver. O cianeto pode atacar o cérebro e provocar tremores, delírios e alucinações. Também pode provocar parada cardíaca. A vítima desse tipo de envenenamento pode morrer por asfixia ou por falência múltipla de órgãos.

O doutor Sérgio explica que o cianeto está presente no corpo humano. CIANETOEspecialmente, em fumantes. Mas que exames feitos dias depois da tragédia indicaram que as vítimas foram intoxicadas com níveis altíssimos da substância. Segundo o médico, os primeiros exames para detectar o cianeto no organismo foram feitos muito tarde.  “As análises elas foram coletadas, isso é importante que se diga, 80 horas depois do evento traumático que a gente considera que é a hora que o incêndio começou na boate. Então, mesmo essas amostras, já tardias, vieram com níveis elevados de cianeto. Desses pacientes que vieram a falecer, essas pessoas que faleceram nessa catástrofe, provavelmente, os níveis de cianeto nessas vítimas deveria estar muito elevado”.

hidroxibobalaminaAssim que receberam a confirmação de que as vitimas fatais tinham alta concentração de cianeto no sangue, os médicos correram atrás do medicamento capaz de inibir a ação do veneno pra ajudar os sobreviventes. Eles descobriram que a hidroxicobalamina, que é uma vitamina B-12 injetável, só existe no Brasil em antiinflamatórios – em quantidades muito pequenas. E para neutralizar a ação do cianeto, é necessária uma concentração bem maior.  E, isso, o Brasil não produz.

A saída foi recorrer ao governo americano, que fez a doação. E no dia 02 de fevereiro de 2013, no sétimo dia após a tragédia, 140 kits do antídoto chegaram ao Rio Grande do Sul.

“Qualquer pessoa minimamente inteligente sabe que se houvesse antídoto na hora talvez alguns pacientes que morreram ali perto, na boate, na zona de resgate, se esse fosse o mecanismo central, teriam uma chance melhor de sobreviver, obviamente teriam sobrevivido, não há como negar isso”, diz o médico.

Os kits, segundo o médico, poderiam ajudar a salvar muitas vidas, e não só em tragédias com a de Santa Maria.

O médico diz que, agora, entre os pacientes em estado grave, cada caso deve ser acompanhado individualmente, e que não há como prever se um ou outro ferido terá mais ou menos chances de se recuperar.

Para mais informações técnicas: Estudo comparativo das formas de vitamina B12

Fonte: Portal G1, Informe-se sobre a Química (Ed. Moderna), Faculdade de Fármacia – Universidade do Porto, Portugal.

Estruturação do Texto: Profª Flávia Vasconcelos

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