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Por milhares de anos, os homens têm manipulado a natureza para obter a melhor colheita e criar o melhor gado. Ao juntarmos várias cepas de animais ou culturas temos orientado o desenvolvimento de muitos organismos. Se você der um passo atrás no tempo, há milhares de anos as culturas eram bem diferentes – em algumas casos nós nem as reconheceríamos mais!

A biotecnologia agrícola é um conjunto de ferramentas e disciplinas destinadas a modificar os organismos para um objetivo em particular. O propósito pode incluir praticamente tudo, indo da busca de maiores rendimentos na lavoura ao desenvolvimento de uma resistência a certas doenças. Embora existam inúmeros meios de alcançar esses objetivos, o método que tende atualmente a atrair a atenção pública é a modificação genética.

Os genes são a unidade básica da informação hereditária. Um gene é um segmento do ácido desoxirribonucléico (DNA) que exprime uma característica particular ou serve para uma função específica. Os genes determinam tudo – da cor de seus olhos ou se você terá ou não alergia a certas substâncias.

Uma vez que a gente vem aprendendo cada vez mais quais são os genes que afetam os mais diferentes aspectos de um organismo, é possível manipulá-los para obter determinada característica ou função. Uma forma de fazer isso é pegar a informação genética de um organismo e introduzi-la em outro – mesmo que este outro organismo pertença a uma espécie completamente diferente. Por exemplo, se você descobriu que uma bactéria em particular tem resistência a determinado herbicida, você pode pinçar tais genes e introduzi-los em determinadas culturas. Então você pode usar herbicidas para acabar com as pragas nas plantas e ervas daninhas enquanto as culturas se mantém a salvo.

Enquanto algumas pessoas podem pensar que uma mudança nos organismos em um nível tão fundamental vai contra à natureza, a verdade é que temos usado métodos “crus” para modelar os organismos durante séculos. Quando os agricultores fazem o cruzamento entre plantas, eles estão usando uma forma mais primitiva dessa metodologia. Mas com o cruzamento, todos os genes de um tipo de organismo são introduzidos em todos os genes do segundo organismo. Nesses casos falta precisão e talvez sejam necessárias gerações e gerações de plantas para que o agricultor alcance o resultado desejado.

A biotecnologia agrícola permite aos cientistas escolher exatamente quais genes serão introduzidos em um organismo. Vamos dar uma olhada em alguns dos benefícios do uso dessa tecnologia.

Benefícios da biotecnologia agrícola

Quando o assunto é a carne

Nenhum produto comestível de origem animal que tenha sido geneticamente modificado está disponível no mercado atualmente. Mas, lembre-se, a carne vendida em lojas pode ter vindo de animais que foram alimentados com grãos geneticamente modificados.

 As aplicações da biotecnologia agrícola são praticamente ilimitadas. A sua própria dieta pode incluir produtos que são resultado de projetos de biotecnologia agrícola. Leite, frutas e outros comestíveis podem estar na sua despensa graças à biotecnologia agrícola.

Através da manipulação genética, os cientistas podem criar culturas que produzem mais do que aquelas que não foram modificadas. Também é possível introduzir genes que aumentam o valor nutricional de determinada cultura. O projeto Golden Rice é um bom exemplo – os cientistas têm usado a engenharia genética para produzir arroz rico em vitamina A. Embora o arroz já tenha genes que produzam a vitamina A, esses genes se desligam durante o processo de crescimento. Os genes introduzidos artificialmente no arroz mantêm essa produção de vitamina A ativa.

Outra aplicação útil da biotecnologia agrícola é dar às plantas a habilidade de crescer em uma ampla gama de ambientes. Algumas plantas só vão bem em determinados climas ou condições do solo. Através da introdução de genes de outros organismos, os cientistas alteram essas plantas para que elas possam se desenvolver em climas onde praticamente nem sequer sobreviveriam.  Solos que anteriormente eram impróprios para o cultivo podem agora ser usados para a produção de alimentos.

Uma terceira aplicação consiste em fazer com que as plantas sejam mais resistentes a doenças, pestes e produtos químicos. Genes podem dar às plantas uma defesa contra ameaças que, em condições normais, poderiam simplesmente eliminar toda uma geração de uma determinada cultura. A manipulação genética pode tornar ainda algumas plantas tóxicas para pestes, mas ainda assim seguras para o consumo humano. Os cientistas podem desenvolver gentes que tornam as culturas resistentes a pesticidas e herbicidas para que os agricultores possam tratar suas plantações com produtos químicos sem prejudicar o nosso consumo.

E a manipulação genética não para por aqui. Através da introdução de novos genes, ou o desligamento de genes já existentes, os cientistas podem mudar quase tudo, da aparência da comida ao seu gosto. Mas ao mesmo tempo que a engenharia genética e suas modificações trazem inúmeros benefícios, a sua prática não está livre de críticas. Alguns cientistas, agricultores e ativistas estão preocupados com onde tudo isso pode chegar e o que a modificação genética poderá produzir a longo prazo. Nós daremos uma olhada em algumas críticas em específico na próxima página.

Críticas à biotecnologia agrícola

 

Biotecnologia agrícola
© iStockphoto.com/Mara Radeva

Sempre que um processo envolve a manipulação de organismos vivos para um propósito em específico, surgem críticas. Alguns acreditam que qualquer tipo de manipulação genética é errado. Por outro lado, os cientistas que trabalham com a biotecnologia agrícola dizem que a modificação genética de organismos existe há muito tempo – só o que mudou é que agora somos mais precisos.

Mas há outras críticas mais específicas que não são fáceis para os cientistas se livrarem. Uma delas diz que a modificação genética requer, muitas vezes, que os cientistas tomem genes de um organismo para inseri-los em um organismo que não tem nada a ver com o primeiro. Isso certamente não aconteceria naturalmente, então o contra-argumento de que “estamos fazendo isso há tempo” não se aplica nesse caso.

Outra objeção é que não temos realmente a certeza do efeito disso tudo no ambiente a longo prazo. O que acontece se genes de culturas que tenham sido modificadas encontrarem seus caminhos em espécies selvagens? É difícil estimar o impacto que culturas modificadas possam vir a ter em espécies de plantas nativas, por exemplo. Pode ser que determinadas espécies de plantas venham a desenvolver características semelhantes às culturas modificadas. Se as ervas daninhas desenvolverem resistência aos herbicidas, por exemplo, é como voltar a estaca zero.

 

Transgênicos no Brasil


A supervisão sobre os transgênicos no Brasil está a cargo da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), organização que integra o Ministério da Ciência e Tecnologia e que tem como função principal assessorar o Governo Federal através de apoio técnico e consultivo,  em tudo o que diz respeito à Política Nacional de Biossegurança relativa aos OGMs (Organismos Geneticamente Modificados).

A CTNBio é formada por uma comissão composta por 27 cidadãos brasileiros que se destacam por suas competências técnicas, saber científico ou ainda atividade profissional nas áreas de biossegurança, biotecnologia, biologia, saúde humana e animal ou meio ambiente. O funcionamento da organização é definido pela Lei de Biossegurança (Lei 11.105).

É então a CTNBio que, no final das contas, dá a decisão técnica sobre determinado OGM, explicitando ainda as medidas de segurança e restrições ao seu uso. E para reforçar o embasamento técnico e científico necessário à aprovação do uso de um determinado transgênico, a CTNBio conta ainda com pareceres dos membros e conselheiros do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). Esses conselheiros, por sua vez, avaliam estudos científicos recentes sobre o assunto publicados na literatura acadêmica mundial. Tudo isso para reforçar o embasamento técnico e científico necessário à avaliação e aprovação de projetos que envolvem os transgênicos.

Alguns temem que a introdução de material genético nas culturas possa criar novos alérgenos. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration estabeleceu duras regras em relação a alimentos geneticamente modificados – uma delas exige que sejam feitos extensos testes alérgicos. Pode até mesmo ser possível remover os componentes alérgicos de um alimento já existente tornando seguro para as pessoas que até então teriam que evitar esse tipo de comida.
Culturas resistentes a pragas podem ter alguns problemas. Os agricultores podem precisar utilizar mais produtos químicos para tratar suas culturas que foram geneticamente modificada para resistir aos venenos. Com o tempo esses produtos químicos podem acumular toxinas no solo ou escorrer para lençóis subterrâneos. Por outro lado, os agricultores não precisariam usar tanto pesticida ao cultivarem plantas mais resistentes a pragas. Alguns estudos sugerem inclusive que ao diminuir o uso de pesticidas, algumas espécies podem realmente se beneficiar de uma troca com culturas geneticamente modificadas.

Há também um temor entre alguns especialistas em agricultura de que a biotecnologia pode levar a uma diminuição da biodiversidade. Ao se depararem com culturas fáceis de lidar e rentáveis, os agricultores podem abandonar o cultivo de outras variedades em favor das espécies modificadas. A diminuição da diversidade pode acarretar conseqüências perigosas. Populações inteiras de plantas podem morrer se forem atingidas por determinada doença. A diversidade ajuda também a manter o solo saudável além de evitar o acúmulo de toxinas com o passar do tempo.

Por fim, é preciso pesar os potenciais benefícios da biotecnologia agrícola e também os seus riscos. A U.S Food and Drug Administration tem regras duras quando se trata de culturas geneticamente modificadas. É preciso confiar na ciência e manter ao mesmo tempo os olhos bem abertos. A biotecnologia agrícola pode nos ajudar a alimentar o mundo.

Fonte: How Stuff Works