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Por Chris Wickham e Rosalba O’Brien

Cientistas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) descobriram uma nova partícula subatômica que pode ser o bóson de Higgs, que acredita-se tenha sido a base da formação do universo.

“Atingimos um marco na nossa compreensão da natureza”, disse o diretor-geral do Cern, Rolf Heuer, a uma reunião de cientistas e jornalistas nos arredores de Genebra, nesta quarta-feira.

“A descoberta de uma partícula consistente com o bóson de Higgs abre caminho para estudos mais detalhados, exigindo estatísticas maiores, que irá apontar as propriedades da nova partícula, e deve lançar luz sobre outros mistérios do nosso universo.”

Dirigindo-se aos cientistas reunidos no auditório do Cern, Heuer fez uma pergunta: “Como leigo, eu diria que eu acho que conseguimos. Vocês concordam?”. Uma ovação respondeu que sim.

O cientista britânico Peter Higgs, de 83 anos, que propôs na década de 1960 a existência do bóson que leva o seu nome, estava no Cern para saudar a confirmação daquela que, para desconforto de muitos cientistas, foi apelidada por alguns comentaristas de “a partícula de Deus”.

Claramente emocionado, com os olhos marejados, Higgs disse aos colegas: “É incrível que isso tenha acontecido durante a minha vida”.

Duas equipes separadas trabalharam de forma independente no Cern com dados de experiências nas quais trilhões de partículas são atiradas umas contra as outras. Caçando minúsculas diferenças que revelem a existência do bóson, ambas chegaram a resultados semelhantes, dando confiança para o anúncio desta quarta-feira.

Joe Incandela, porta-voz de uma das equipes, disse que “este é um resultado preliminar, mas achamos que é muito forte e muito sólido”. Seu grupo estimou a massa da nova partícula em 123,3 gigaelétron-volts (GeV).

Oliver Buchmueller, físico sênior de uma das equipes, afirmou à Reuters que “o fato de ambas as nossas equipes terem chegado de forma independente aos mesmos resultados é muito forte”. “Sabemos que é um novo bóson, mas ainda temos de provar definitivamente que é o que Higgs previu”.

TEORIA UNIVERSAL

A teoria de Higgs explica como as partículas se agruparam para formar estrelas, planetas e a própria vida. Sem o bóson de Higgs, as partículas que compõem o universo teriam permanecido como uma sopa disforme, diz a teoria.

Essa é a última peça que faltava no quebra-cabeça do Modelo Padrão da física, que descreve a composição fundamental do universo. Esse modelo está para os físicos como a teoria da evolução para os biólogos.

O que os cientistas não sabem ainda, mesmo com a nova descoberta, é se essa partícula é o bóson de Higgs tal qual descrito pelo Modelo Padrão. Ela pode ser uma variação da ideia de Higgs, ou uma partícula subatômica inteiramente nova, o que forçaria uma revisão da estrutura fundamental da matéria.

Essas duas últimas possibilidades são, em termos mais científicos, as mais excitantes.

“Se eu fosse de apostar, eu apostaria que esse é o Higgs. Mas ainda não podemos dizer isso definitivamente. É como um pato que anda e grasna como o Higgs. Mas agora temos de abri-lo e olhar lá dentro antes de podermos dizer se é mesmo o Higgs.”

Incandela refletiu sobre a empreitada humana que foi essa descoberta: “Foi um projeto incrível ao longo de duas décadas. Ele envolveu 3.300 cientistas para chegar a esse resultado… Esses resultados são agora globais e partilhados por toda a humanidade.”

Higgs reconheceu o mérito do Grande Colisor de Hádrons, um acelerador de partículas de 27 quilômetros, construído de forma circular e subterrânea na região da fronteira franco-suíça, e no qual as experiências foram feitas.

Em nota, o cientista acrescentou: “Nunca esperei que isso fosse acontecer na minha vida, e devo pedir à minha família para colocar champanhe na geladeira.”

(Reportagem adicional de Robert Evans em Genebra)

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Fonte: REUTERS BRASIL