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No governo de Getúlio Vargas, em 2 de junho de 1943, foi editado o Decreto-Lei nº 5540, que estabeleceu o Dia do Índio. A data é comemorada no dia 19 de abril em homenagem ao primeiro Congresso Indigenista Interamericano, em 1940.

Desde a edição do decreto instituidor do Dia do Índio até o advento da Constituição de 1988 pouco foi realizado em prol dos indígenas brasileiros. Essa situação foi alterada a partir da vigência do novo ordenamento constitucional brasileiro, que reconheceu a multietnicidade brasileira e assentou a superação da visão integracionista que influenciava toda a legislação e a interpretação jurisprudencial a respeito de temas ligados aos índios.

O Brasil tem cerca de 230 povos indígenas, que falam cerca de 180 línguas. Cada etnia tem sua identidade, rituais, modo de vestir e de se organizar. Somente em Mato Grosso, há 42 etnias identificadas, o que significa uma população superior a 28 mil indígenas. Número este que retrata a riqueza da diversidade cultural que o Estado possui.

Os povos indígenas não vivem mais como em 1500. Hoje, muitos têm acesso à tecnologia, à universidade e a tudo o que a cidade proporciona. Nem por isso deixam de ser indígenas e de preservar a cultura e os costumes. “Ser índio não é estar nu ou pintado, não é algo que se veste. A cultura indígena faz parte da essência da pessoa. Não se deixa de ser índio por viver na sociedade contemporânea”, explica a antropóloga Majoí Gongora, do Instituto Socioambiental Brasileiro.

População indígena cresce 11,4%

A população indígena cresceu 11,4% em dez anos, somando 817 mil pessoas em 2010, representando 0,4% do total da população brasileira. Nesse mesmo período, os índios brasileiros se espalharam mais pelo território nacional. Em 2010, eles estavam presentes em 80,5% dos municípios contra  63,5% em 200. Os dados são do Censo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo a pesquisadora Nilza Pereira, do IBGE, ainda não é possível explicar o motivo dessa maior distribuição dos indígenas pelo país. Uma das hipóteses é que as pessoas estejam revalorizando sua identidade ancestral, já que a declaração da etnia é feita pela própria pessoa entrevistada.

— Ainda estamos analisando os dados e isso deve ficar mais claro na pesquisa que vamos divulgar em breve. Mas talvez etnias que estariam supostamente extintas podem estar se reassumindo. É um ressurgimento dessa população, avaliou Nilza Pereira.

A Região Norte concentra 37,4% do total de indígenas brasileiros, sendo que o estado do Amazonas responde por 20,6%: 168,7 mil pessoas. O município de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, é onde há um maior número de indígenas: 29 mil. Em Uiramutã, Roraima, há o maior percentual de indígenas: 88,1% da população.

Zona rural

O crescimento da população indígena foi percebido apenas nas zonas rurais, onde o crescimento chegou a 152 mil pessoas, totalizando 502 mil em 2010. São Gabriel da Cachoeira é também o município com maior número de indígenas vivendo na zona rural: 18 mil.

Por outro lado, o número de indígenas autodeclarados residentes nas cidades diminuiu em 68 mil pessoas e chegou a 315 mil em 2010. São Paulo é a cidade com o maior número de indígenas vivendo em zona urbana: 11,9 mil pessoas.

Segundo o IBGE, a redução dos indígenas vivendo em áreas urbanas ocorreu com mais intensidade na Região Sudeste. O instituto acredita que, nessa região, as pessoas deixaram de se declarar indígenas porque perderam a afinidade com seu povo de origem.

Filme “Xingú” 

E para conhecer um pouco mais de nossos antecendentes, nada melhor que assistir “Xingú”. Veja informações do filme abaixo.

Em Xingu, o diretor Cao Hamburger recria a trajetória épica dos irmãos Villas Bôas, da excitação dos primeiros contatos com os índios ao dilema de não mais poder conter o avanço que haviam ajudado a iniciar

Em 1943, quando Cláudio, Leonardo e Orlando Villas Bôas se juntaram à expedição Roncador-Xingu para desbravar a imensidão do Oeste brasileiro, seu desejo era lançar-se no desconhecido.

Logo veio o medo: cercados de índios durante as noites, ouvindo gritos e entrevendo flechas apontadas para si, os irmãos experimentaram, no século XX, o sobressalto que os descobridores haviam vivido na costa no século XVI. Depois, a partir dos primeiros contatos com os índios, sobrepôs-se a excitação de estar onde nenhum branco chegara antes e descobrir um Brasil primordial, abrir pistas de pouso no meio do nada, viver a vida frugal da mata.

Essa inocência, porém, durou só até a primeira epidemia de gripe a varrer os índios recém-contactados. Nas décadas seguintes, Cláudio e Orlando (Leonardo deixou cedo a expedição e morreu em 1961), criadores do Parque Nacional do Xingu e indisputadamente os maiores sertanistas brasileiros, se dedicaram a ser a vanguarda do avanço inevitável para proteger as tribos no caminho deste, e para tentar regular esse avanço.

Seu sentimento, aí, já se tornara de obstinação, missão e um quê de amargura.

Esse percurso descrito em Xingu (Brasil, 2012), do diretor Cao Hamburger, já em cartaz, é o de uma jornada heroica, na acepção do termo: vai do chamado à aventura até a síntese de tudo o que ela representou – o primeiro avistamento dos kranhacarores, que no início dos anos 70 se acreditava serem a última tribo ainda isolada.

Minucioso na pesquisa e majestoso na realização, Xingu sobretudo reapresenta à plateia o gregário, político e pragmático Orlando (Felipe Camargo) e o idealista, irredutível e complicado Cláudio, que na história esteve quase sempre à sombra do irmão mas ganha, aqui, uma excepcional interpretação por parte do ator João Miguel.

Ver o filme é como estar de volta com os irmãos à mata, narra nas páginas seguintes o fotógrafo Pedro Martinelli, que acompanhou os Villas Bôas entre 1971 e 1973.

“Eram brasileiros espetaculares”

Por três anos, o fotógrafo Pedro Martinelli acompanhou a última expedição dos irmãos Cláudio e Orlando Villas Bôas no norte de Mato Grosso e sul do Pará.

A viagem, que se estendeu de 1971 a 1973 com breves interrupções, tinha por objetivo o primeiro contato com os índios kranhacarores, que somente anos depois se descobriu chamarem panarás – como é comum, o primeiro nome da tribo fornecido aos brancos foi o nome dado a eles por seus inimigos.

Os panarás ocupavam uma área de floresta pela qual passaria a BR-163, a Cuiabá-Santarém. Pedrão, como era chamado por Cláudio e ainda hoje é conhecido pelos amigos, tinha então 20 anos. Foi enviado pelo jornal O Globo para cobrir a épica viagem dos sertanistas, que foi documentada também pelo então fotógrafo de VEJA Luigi Mamprin.

Durante a longa espera dos Villas Bôas pelo encontro com os “índios gigantes”, Pedrão passou a se sentir adotado por Cláudio, o mais arredio, sagaz e idealista dos irmãos. “Ele foi meu pai de mato”, diz. Passados 39 anos, o fotógrafo, autor das imagens destas páginas, assistiu à exibição de Xingu.

A seguir, seu relato ao editor Leonardo Coutinho sobre o que viu na tela e, sobretudo, viveu ao lado dos Villas Bôas.

MOMENTO DECISIVO O índio paraná Sôkriti, fotografado por Pedro Martinelli em fevereiro de 1973, na primeira vez em que um membro da tribo ficou frente a frente com um dos expedicionários - no caso, Cláudio Villas Bôas. Quase três anos transcorreram até que se conseguisse esse contato inicial com os "índios gigantes"

MOMENTO DECISIVO — O índio panará Sôkriti, fotografado por Pedro Martinelli em fevereiro de 1973, na primeira vez em que um membro da tribo ficou frente a frente com um dos expedicionários – no caso, Cláudio Villas Bôas. Quase três anos transcorreram até que se conseguisse esse contato inicial com os “índios gigantes”

“Fui ao cinema com o pé atrás, com medo de encontrar uma ficção cheia de clichês. Mas fiquei muito impressionado com o que vi. Principalmente com a imagem do Cláudio, que sempre foi um grande injustiçado. Orlando tinha mais visibilidade. Não que não a merecesse, mas o fato de ele ser o relações-públicas acabava por ocultar a verdadeira dimensão de Cláudio na história.

“Orlando era o sujeito capaz de falar com os militares, atender os jornalistas e mostrar para o mundo a importância do que eles estavam fazendo pelo interior do Brasil. Era uma pessoa extremamente agradável, capaz de contar as histórias mais saborosas.

“Brasileiros extraordinários”

“Cláudio não era assim. Era recluso, não dava a mínima para os militares e não tinha paciência com repórteres. Mas era ele o maestro. Deu o conteúdo e o sentido ao trabalho dos Villas Bôas. Eles foram brasileiros extraordinários. O filme me surpreendeu justamente nisso. Dá a medida exata de cada um. O ator João Miguel ficou tão parecido com Cláudio e conseguiu reproduzir seu temperamento com tamanha fidelidade que eu me senti de novo dentro do mato, com ele.

Cláudio sofria muito e raramente extravasava esse sentimento. Há uma cena no filme em que, depois de tomar um porre, ele se vê sozinho em uma praia, largado. É uma representação perfeita da impotência dele diante do que ele previa sobre o que ia acontecer com os kranhacarores. Tanto Cláudio quanto Orlando sabiam que, embora a expedição tivesse por objetivo salvar os índios, o contato em certa medida resultaria no fim daqueles que eles imaginavam ser os últimos isolados. Essa dor é visível no filme.

“Naqueles três anos, fui aprendendo a admirar os dois. Cláudio era meu herói. Foi meu paizão de mato.

Debaixo de chuva, comendo carne de macaco

Aprendi a andar no mato e a gostar disso com o meu pai de verdade, Pedro. Mas, com Cláudio, aprendi o que é uma expedição. A ter método, passar oito meses debaixo de chuva e comer macaco cozido, moqueado, de qualquer jeito.

Na verdade, era uma delícia. Cláudio não pescava e não caçava, mas gostava de comer e cozinhar de tudo. Temperava um feijão maravilhoso com uns condimentos que ele escondia ninguém sabe onde. Nos dias em que batia saudade da cidade, a gente construía na imaginação caminhos que nos levavam aos nossos restaurantes preferidos em São Paulo. Ele adorava `ir´ ao Gigetto.

A imaginação era tão poderosa que a gente até falava com os garçons e pedia o prato. Eu saí do mato umas três vezes, para ver minha mãe. Orlando viajava muito também. Cláudio, não; estava sempre lá no mato.

EXPEDICAO 1

GENTE ARREDIA — Os Villas Bôas (na canoa à esq.) e os índios xinguanos que participavam da expedição voltam de uma aldeia abandonada pelos panarás: uma entre sucessivas tentativas de contato frustradas (Foto: Pedro Martinelli)

Meses esperando no mato — até o dia emocionante do primeiro encontro

“Enquanto Orlando negociava com os militares e tentava atrasar a obra da Cuiabá-Santarém, ou até mesmo desviar o trajeto da estrada — esse tipo de esforço político era fundamental para o trabalho deles –, a tática do Cláudio era morar no quintal dos índios e ali marcar presença.

Nunca ele tomava a iniciativa do contato. Passamos meses nas redes, ouvindo gritos dos índios, sem tomar nenhuma iniciativa. A vida era amarga. Cláudio resistia. Não tinha pressa, pois também ele queria adiar o contato. Até o dia em que os índios vieram até nós, em 4 de fevereiro de 1973. Cláudio foi sozinho ao encontro deles.

Eu vinha atrás em outro barco. Um deles usava um colar preto e branco que eu deixara pendurado em um varal de presentes para os índios. Esse índio esticou o arco e apontou uma flecha na cara do Cláudio, que estava sem camisa e desarmado – esses contatos eram as únicas ocasiões em que ele andava sem arma. Cláudio não se moveu. Foi como um teste para mostrar quem mandava ali.

DE PERTO Os paranás investigam a "falsa estrela cadente" que os sobrevoara tantas vezes - e que sempre recebiam a flechadas (Foto: Pedro Martinelli)Pouco antes fiz a fotografia que mudou minha vida e definiu minha carreira. Sôkriti (o índio que aparece acima) apareceu do nada na mata. Foi a primeira visão de um panará. Depois do contato, a euforia era tamanha que os índios xinguanos que acompanhavam a expedição viraram as canoas, de tanto pular dentro delas. Minhas câmeras e filmes foram para o fundo do rio. Vi minha vida terminar. Mas todos se jogaram na água para recolher na lama o meu equipamento.

DE PERTO — Os panarás investigam a “falsa estrela cadente” que os sobrevoara tantas vezes – e que sempre recebiam a flechadas (Foto: Pedro Martinelli)

“Essa é uma história difícil de ser repetida. Hoje não há mais sertanistas, e ninguém quer mais ir para o mato. Cláudio e Orlando foram mestres, e merecem receber a devida atenção.”

(Publicado em VEJA de 11 de abril de 2012, por Isabela Boscov)

Fontes: http://correiodobrasil.com.br/dia-do-indio-uma-saga-de-sobrevivencia/436866/

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/dica-de-leitura/o-filme-xingu-a-trajetoria-epica-dos-irmaos-villas-boas/